Por  Adélia Mathias

Quando a poesia é o que mais importa

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

(Fernando Pessoa)

Com essas estrofes de Autopsicografia, eu começo esse texto que não é fácil, mas quero escrever porque remete à literatura, tema que eu pouco abordo na internet. Estamos em estágios tão conservadores que eu prefiro lidar com sua importância na manutenção da hegemonia instaurada somente no ambiente acadêmico, uma vez que por aqui o debate não costuma ser frutífero.

Hoje, dia 04/12/16 o intelectual brasileiro Ferreira Gullar morreu (estou pensando na ironia de ser exatamente no dia de Oyá).

No mundo literário ele foi um grande poeta brasileiro, falou de temas que me pegaram o coração, o mesmo que sofreu com a morte simbólica de um homem elitista, que usou sua capacidade argumentativa para defender que afro-brasileiras/os produzem cultura de qualidade, sim, mas por meio das artes consideradas menores, como dança ou música (não a erudita, mas a popular, cheia de percussão). Sim! Ele exalta a capacidade de a população negra conseguir produzir lindamente o Carnaval! Mas, simultaneamente ele diz que a arte literária, por ele considerada maior, é uma herança europeia que negras e negros só podem copiar então não tem cabimento dizer que existe uma literatura afro-brasileira, querer isso, para ele, é querer separar o Brasil entre brancas/os e negras/os. Qualquer ranço racista e/ou semelhança com quem defende o “racismo reverso” ou nega a reivindicação da alteridade não é mera coincidência.

Eu sou o sujeito despedaçado que um dia amou a poesia de Gullar, mas que sofreu muito por ser o objeto de desprezo dele também. Faço parte de um mundo acadêmico que não me quer parte dele, não me reconhece como sujeito dotado de voz e de opiniões, de senso estético e de crítica legítima. Como Gullar, sei que muitos intelectuais e docentes de literatura me querem calada, ou apenas como uma boa imitadora do que já foi produzido no mundo europeu, mas minha ancestralidade africana, ainda que subjugada, resiste, a despeito do ótimo trabalho da colonização e da manutenção das disparidades sociais entre negras/os e brancas/os neste país, e aqui estou eu, debatendo com professores, expondo seus argumentos racistas e os fazendo repensarem seus posicionamentos que muitos sequer notam serem racistas e se incomodam quando expostos porque pegarão mal em seus meios progressistas, mas não pensam antes de expor.

Tinham planos políticos de erradicarem qualquer presença negra em solo brasileiro no ano de 2000, na verdade essa era uma previsão. Tinham planos de acabarem com nossa cultura e nossa história, deixando documentos ao léu e esquecendo das possibilidades do destino, como uma grande escritora do porte de Ana Maria Gonçalves dar de cara com documentos e decidir fazer um dos maiores romances históricos contemporâneos sobre a escravidão negra no Brasil, a saber Um defeito de cor. Tinham planos de nos alijarem, mas nos manterem vivas/os como sub-raça para manter o sistema capitalista que se alimenta de miséria e mão de obra barata. Mas o futuro não costuma caber nos planos de um só grupo, as sociedades e os sujeitos sociais não são tão previsíveis...

Hoje morreu fisicamente um intelectual brasileiro, inclusive dotado de uma ótima construção argumentativa que ele faz para justificar seu racismo parece sair da obviedade, mas quando se olha a estrutura é realmente só mais do mesmo, estrutura blasé de sempre com refinamento intelectual de poucos.

Mas sua morte também nos coloca diante de outras questões, aqui deixo um pouco do que meu debate interno me fez notar: falar de pobreza, falar de preto, da vida dura e humanizar o/a leitor/a não é o mesmo que viver na pobreza, ser preto ou ter uma vida difícil. Não quero falar sobre o termo fascismo porque ele anda meio esvaziado, mas não posso deixar de pontuar que defender o elitismo da literatura, sua autenticidade branca e dizer que negros nada mais podem fazer, a não ser imitar gente branca nesta arte é, sim, hierarquizar saber a partir de seu ponto alto de privilégio.

Só consigo fechar esse texto com Pessoa, o poeta realmente é um grande fingidor, pois consegue escrever coisas com as quais nunca teve contato direto, dar sentimento a elas e ao mesmo tempo se manifestar para mantê-las exatamente do mesmo modo. Seria essa uma atitude para que a poesia nunca morra?!

Sugestões de leitura:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/12790-preconceito-cultural.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1204200920.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0507200919.htm

Publicado em 06/12/2016

INICIANDO OS TRABALHOS


Fui convidada pela minha colega Daniela a ser colaboradora no blog do Fernando, quando corri para ver a cara do blog ele era um Drummond e eu pensei nos caminhos que a vida nos leva... eu, que tanto tenho falado sobre o que é ser mulher e negra em um país como o Brasil e deixado o meu ofício de pesquisadora da literatura brasileira apenas para o desenvolvimento da minha tese, dou de cara com um blog que me lembra uma das minhas maiores paixões, a danada da literatura.

Então provavelmente eu continuarei falando de questões de raça e gênero, primeiro porque constituem o sujeito que eu sou e as experiências pelas quais eu passo cotidianamente e segundo porque é meu modo de fugir da tese literária que estou produzindo e que às vezes me esgota. Mas também quero falar sobre literatura e filosofia e meta-teoria, e quem sabe até me arriscar a falar sobre o que tenho aprendido no grupo de estudos de religiões afro-brasileiras do qual faço parte.

Agradeço com felicidade o convite do Fernando e da Daniela, gostei do formato livre e menor para escrever e nesta primeira contribuição vou terminar deixando minha famosa carteirada social, porque muitas vezes algumas pessoas se esquecem de respeitar a profissional que sou apenas porque sou uma mulher negra e não figuro em tal posição no imaginário coletivo delas.

Sou Adélia Mathias, minha vida profissional é toda forjada na Universidade de Brasil, sou graduada em Letras – Português e respectivas literaturas, mestra e doutoranda em literatura, pesquiso especificamente a autoria de escritoras negras brasileiras contemporâneas. Sou consultora de língua portuguesa, relações raciais e de gênero, e aí porque sou especialista pela educação formal, não apenas (o que não é pouco) porque sou mulher negra, sou também professora e desejo lecionar em universidade pública depois do doutorado.

Depois de minha breve apresentação, deixo registrado meu desejo de colaborar por um bom tempo com o blog, repito minha felicidade por estar aqui e espero conseguir: ser mais sucinta, para ficar de acordo com a média do que as/os colegas de blog escrevem, e ter regularidade na colaboração, um problema que me faz não investir em comunicação na internet desde sempre, rs.

Abraço e espero que meus textos ajudem com poesia e consciência para as/os leitoras/es.

Publicado em 31/10/2016