Por  Daniela Chermont Sapia

MENINAS, MULHERES E VIOLÊNCIA

No dia 11 de outubro, celebrou-se o dia internacional das meninas. Infelizmente não temos motivos para comemorar.

A ONG Save the Children, usou a data para divulgar o relatório Every Last Gril, que lista os melhores e piores países do mundo para ser menina. A pesquisa listou 144 países: o melhor, no topo da lista é a Suécia; o Brasil aparece em péssima posição, 102ª, perdendo para países como a Índia, que tem altíssimos índices de violência sexual, e atrás de todos os demais países da América Latina, em último lugar ficou o país africano Níger.

A ONG analisou estatísticas de casamento infantil, gravidez precoce, mortalidade na gestação, participação política e acesso à educação secundária para fazer o ranking. O Brasil foi mal em todos os parâmetros analisados, mas o pior foi o casamento infantil, no qual conseguiu a vergonhosa 4ª pior posição. Embora, no país, a pratica sexual com menores de 14 anos mesmo que “consensual” seja considerada CRIME, e a união só possa, legalmente, ser realizada a partir dos 18 - exceto no caso de grávidas maiores de 16 anos desde que autorizadas pelos pais -  na prática, o que se vê é um número altíssimo de casamentos de meninas com homens muito mais velhos.

O “casamento” infantil, ocorre por uma série de fatores, sendo os principais a gravidez precoce, a pobreza e a violência.  

O Estado não tem políticas públicas suficientes para evitar os riscos sociais aos quais estão expostas essas meninas, não agindo na causa nem na consequência, uma vez que, efetivamente, não há punição para quem engravida ou contrai núpcias com menores.

Uma das explicações para a falta de políticas públicas especificas para meninas e mulheres também foi escancarada pela pesquisa, qual seja, a baixíssima participação de mulheres na política. Às mulheres ainda hoje, em 2016, é reservado o espaço privado, local de reprodução de assimetrias entre os sexos. Como não há mulheres em cargos políticos nossas necessidades particulares dependem da sensibilidade e coerência dos homens.

Explicita-se assim o círculo vicioso em que causas e consequências se confundem e se retroalimentam.

A alarmante pesquisa reforça o que já se expôs em pesquisas anteriores: é muito difícil ser mulher no Brasil. No ano passado um relatório da ONU já havia colocado o Brasil como um dos 60 piores lugares do mundo para ser mulher ao analisar números ligados ao caráter reprodutivo, de saúde, mercado de trabalho e de capacitação educacional.

Outra pesquisa nos mostrou que mais de 1/3 da população brasileira, aí incluídos homens e mulheres, consideram as vítimas culpadas pelo estupro.

Esta pesquisa demonstra como o machismo ainda é tão arraigado e reproduzido em nossa sociedade, provocando uma série de violências reais e simbólicas cotidianamente na vida de meninas e mulheres.  

A violência mais grave que estão expostas as mulheres é o femincídio. Segundo a OMS o Brasil ocupa o 5º lugar nesse ranking.

Numa sociedade como a nossa, que não consegue se livrar de preconceitos estruturais, ser mulher e negra é incremento no fator de risco isto porque, de acordo com a ONU, houve um aumento de 190,9% na vitimização de negras entre 2003 a 2015.  A vitimização desse grupo era de 22,9%, em 2003, e saltou 66,7% no ano passado. Ou seja, em 2015 foram mortas 66,7% mais mulheres negras do que brancas.  

É desalentador saber que, do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Nessa terça feira, 25 de outubro, em várias capitais do país acontecerão atos aos moldes do que já ocorreram em outros países da América Latina contra esse crime.

O ato se denomina NI UNA MENOS (nenhuma a menos). O país precursor foi a Argentina, que abalada pelo assassinato da adolescente de 16 anos Lucia Peres, que antes de morta foi drogada, estuprada e empalada, se mobilizou para tentar frear a dura realidade a que estamos expostas.

No Rio de Janeiro, a concentração ocorrerá às 18 horas na ALERJ.

É muito importante a presença de todos, a rua é local de expor nossas pautas e pressionar a sociedade por mudanças tão fundamentais.

Para maiores informações utilizar a hashtang #ni uma menos nas redes sociais.

Publicado em 23/10/2016


 

O FEMINISMO E MARCELA TEMER  

Existe uma ideia de que feminismo significa ser amiga de todas as mulheres não as criticar, eliminar os homens e por aí vai, vamos procurar neste espaço debater o verdadeiro objetivo do feminismo. Portanto, começo afirmando que a ideia de que mulheres não podem ser criticadas é bastante equivocada e reduz em muito o objeto e alcance do feminismo que se trata de uma pratica política revolucionaria, que visa basicamente transformar a configuração do mundo, através da eliminação das desigualdades materiais e simbólicas impostas historicamente às mulheres, da construção de relações mais equânimes entre os sexos e da ruptura com estereótipos que limitam os indivíduos e as relações.

Na realidade o feminismo, e as feministas precisam sim, criticar outras mulheres, não uma crítica personalista, mas uma crítica política, pois há praticas que são perpetuadas por determinadas mulheres que são um verdadeiro desserviço às demais e a causa feminista. Embora, todas as teorias feministas concordem que toda mulher é oprimida pelo machismo, o feminismo marxista há muito vem denunciando que algumas mulheres exploram as demais.

Situação que não passou despercebida para a escritora Simone de Bevouir, que não trata da exploração das mulheres umas pelas outras, mas dá relevo a dificuldade de organização das mulheres como categoria política. Isto porque, como a categoria mulheres está longe de ser homogênea, já em 1949, a autora denunciava a falta de unidade das mulheres fazia com que estas se unissem aos homens de sua classe, assim a mulher burguesa é mais solidária ao homem burguês do que à mulher proletária.

Dito isto, precisamos e devemos falar de Marcela Temer e do ideal que esta dissemina não só para os homens, mas principalmente contra as mulheres trabalhadoras do país. Marcela é vítima? É bastante razoável afirmar que a jovem Marcela que se casou com um homem muito mais velho, político influente, tenha sido sim vítima do machismo, que dita o que se pode esperar de uma mulher bonita e educada, ou seja, que faça um bom casamento e se resigne a ser uma boa mãe uma esposa exemplar, bela, recatada e do lar. Ocorre que Marcela tornou-se aliada de seu algoz, recorrendo novamente à Simone de Bevouir, ouso afirmar que Marcela é aquela que não se reivindica como sujeito, que não assume a angustia e tensão de uma existência autenticamente assumida.  Assim, Marcela, escolheu o caminho fácil, o de ser o “Outro” de Temer, de ser coadjuvante de sua própria história, à sombra do marido representando o papel que dela se espera sem romper paradigmas, e neste momento, propagando a ideologia que o governo golpista quer impingir às mulheres e à sociedade brasileira. Por que devemos discutir Marcela? Porque Marcela não é estratégia para distrair do golpe, Marcela é o próprio golpe, o golpe da elite contra a classe trabalhadora, o golpe que sofreu uma mulher, protagonista de sua história e da história do país, a presidentA eleita Dilma Rousseff. Tudo em Marcela é propaganda de um ideal patriarcal: as roupas, os gestos, o cargo agora ocupado, o discurso, o tom. No problemático discurso de Marcela já amplamente criticado nas redes sociais esta afirma entre outras coisas que existe um instinto materno.

Ora, essa balela já há muito foi refutada pelas melhores correntes feministas, não existe instinto materno, a mãe aprende a ser mãe assim como o pai aprende a ser pai, e os filhos a serem filhos, mas a mãe aprende a ser mãe mais rapidamente porque foi esta a construção social que se fez da mulher, de que ela tem instinto materno, que cuida melhor dos filhos, que cuida da casa, em última análise essa ideia visa isolar a mulher na esfera privada, do lar, dos cuidados, limitando quando não suprimindo sua participação na vida pública e na política.

Ademais, Marcela tenta passar também a ideia de que basta dar carinho, pôr no colo que as crianças crescerão felizes e saudáveis. E a ideologia falaciosa do liberalismo de que todos os indivíduos têm plena capacidade de desenvolvimento, pouco importando as estruturas que os oprimem.  Em realidade nas entrelinhas o que Marcela pretende e colocar nas famílias, nos cuidadores, toda responsabilidade pelas crianças, tirando do Estado seu papel de garantidor na promoção da igualdade material, fundamental a todos os indivíduos para o pleno exercício da cidadania.

Marcela é golpista, é a representação de um golpe machista da elite branca burguesa contra a classe trabalhadora, estejamos atentas.

* O Outro não a outra, termo usado pela autora para descrever a situação social da mulher

Publicado em 10/10/2016