TRIVIALIDADES

O cotidiano nos ensina todos os dias. Basta ter olhos de ver e traduzir em palavras a poesia da vida.

A PEDRA QUE ATINGIU MEU TELHADO DE VIDRO

Manhã de sábado e um plantão tranqüilo. Discutíamos os casos das crianças  internadas no CTI como sempre fazemos  nesse período do dia. Nessa manhã, pode-se dizer que a discussão seguia animada, até alegre. A estabilidade dos nossos pacientezinhos permitia que estivéssemos assentados à bancada, anotando, sugerindo, divagando. O colega que havia largado o plantão nos avisara que chegaria uma criança do interior para ser internada. Antes que concluíssemos a passagem dos casos, chega a criança que esperávamos. Mas ao contrário do esperado, não vem transportada em uma maca ou incubadora. Chega ao CTI nos braços de uma mulher. Mulher negra, de aparência simples. Os cabelos ressequidos cuidadosamente presos em um rabo de cavalo. Vestia uma jaqueta já surrada, e trazia o bebê aconchegado ao colo. Ao lado, outra mulher de aparência não menos simples, mas usando um jaleco igualmente surrado por cima da roupa, segurava um frasco de soro. Olhei para os três e deduzi: 
-É a criança da cidade tal?
- Sim. – Reponderam as duas mulheres quase ao mesmo tempo.
Logo elaborei uma segunda dedução, mas fiz isso antes que a prudência tivesse tempo de me aconselhar. Atirei a pedra para cima:
- Veio sem médico?
Mesmo antes de ouvir a resposta escutei o som do vidro se estilhaçando:
- Não! Eu sou a médica! E ela é a enfermeira. 
Respondeu, com um sotaque castelhano, a mulher que trazia em seus braços a criança. Respondeu com firmeza, me olhando nos olhos, mas sem raiva. Respondeu com a serenidade de quem tem o coração leve e a consciência tranquila.
O mal estar que me invadiu a alma fez violento contraste com a tranqüilidade de segundos antes. Não tive espírito para me redimir do mal feito. Apenas respondi com um “OK” seco e indiquei o leito para o qual a criança deveria ser encaminhada.
Senti na boca um gosto amargo. Era o gosto do preconceito que emergira do meu coração.  A questão não era absolutamente a cor da pele. Fosse uma negra com os cabelos cacheados, óculos Ray-Ban, maquiada, com jaleco branquinho e em cima do salto, eu não teria dúvidas tratar-se da médica. Mas aquela mulher tão simples, de aparência e vestimentas! Aquela mulher cuja singeleza de sentimentos atentava contra todos os protocolos e carregava aquele que era seu paciente em seus próprios braços! 
Passei o restante da manhã tentando justificar intimamente minha atitude. Afinal, é muito comum que os pacientes do interior sejam indevidamente transportados sem médico. E qual médico brasileiro, independente de gênero ou raça, transportaria seu doente dessa forma tão próxima? Mas quanto mais justificativas eu buscava mais estilhaços de vidro me caíam à cabeça. 
Preconceito é isso. É não enxergar além da forma. É pré-conceber julgamentos desprovidos de bases sólidas. Ele fica lá, sendo discretamente cultivado dentro das nossas histórias, se expandindo lentamente em torno dos nossos conceitos, até que em uma bela manhã ensolarada ele dá o ar da graça. 
A colega, provavelmente formada em Cuba, nos entregou seu pequeno paciente, que havia sido muito bem assistido do ponto de vista médico e humano. A precariedade das condições de trabalho não agastou a médica cubana, nem a impediu de fazer seu trabalho da melhor forma. Após deixar o pequeno sob nossos cuidados, se despediu amistosamente, agradeceu e partiu com um esboço de sorriso nos lábios, evidenciando a satisfação de quem cumpriu bem seu dever. E nós ficamos, amargando nosso preconceito.

Postado em 20/12/2016

DOUTRINAS DETURPADAS

Cristianismo, Comunismo, Socialismo.

Doutrinas de inegável elevação moral, mas sempre duramente criticadas pelo senso comum. Senso comum. Esse sim é o verdadeiro cancro da sociedade. Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, disse que  “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Isso é real graças ao famigerado senso comum. Aquilo que todos repetem de forma contundente acaba por se tornar “verdade”, ainda que sejam tolices desmedidas. O escorpião não se mata se for encurralado em um círculo de fogo. Ele desidrata. A cauda se aproxima do corpo não para que o seu veneno seja auto inoculado, mas porque ele está secando e perdendo sua forma. Mas todos podem observar a cauda se aproximando do corpo. Conclui-se que ele se mata, inoculando-se o próprio veneno. Mas nem tudo é o que parece ser.  Necessário observar por outros prismas. O prisma da informação é uma opção interessante!

Pode-se até considerar compreensível que na década de 60 se acusassem os comunistas de “comedores de criancinhas”, devido ao terror implantado na China por Mao Tse Tung. Ele chamou esse estado totalitário de“República Comunista da China”. O senso comum comprou a ideia de esse regime seria um regime Comunista. Compreensível, porém não justificável, já que bastariam noções básicas sobre a doutrina Comunista para entender que o sistema político da China estava longe de ser Comunismo, embora fosse denominado dessa forma. Mas reproduzir nos dias atuais um discurso de que comunistas praticaram o maior estupro coletivo do século, considerando o que supostamente ocorreu no governo totalitário da União Soviética, é uma completa falta de educação cultural. O senso comum impera tanto sobre essas questões, que embora as políticas implantadas na Austrália e nos Países Escandinavos sejam essencialmente socialistas, esse países denominam sua ideologia política de “Social Democracia”, possivelmente para que não lhes sejam atribuídas as reminiscências do governo totalitário de Stalin, que ele chamou de Socialismo.

A ideologia da doutrina Comunista é o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apartidária, baseada na propriedade comum dos meios de produção. Sociedade apartidária, ou seja, sem Estado. A decisões seriam tomadas de maneira democrática pela comunidade. Em sua descrição original Marx escreve a expressão “sem opressão” quando discorre sobre a forma de se estabelecer as políticas comuns. A doutrina Comunista é o oposto daquilo que Mao Tse instaurou na China: Estado pleno, totalitário. A extinção de toda e qualquer discussão democrática. Até a forma de plantio e o que deveria ser plantado era estabelecido pelo Estado. A China era na verdade uma Ditadura Fascista, sob a denominação de Comunismo.
O Socialismo, em sua forma teórica, seria uma maneira de viabilizar o Comunismo a longo prazo, possibilitando a transição do Capitalismo, com o Estado executando a função de organizar as políticas sociais. O Estado seria forte e recolheria os recursos para distribuí-los de forma igualitária, similar ao que ocorre atualmente na Austrália e Dinamarca, onde o cidadão paga de 40% a 45% da sua renda como imposto ao Estado, e todos têm garantidos direitos básicos como educação, saúde, segurança e lazer. Embora o princípio central do Capitalismo, a propriedade privada, permaneça como a  base da economia desses países, a sua estrutura sócio-política foi o que mais próximo se chegou até hoje da essência do Socialismo, enquanto que o  Estado opressor que foi instaurado na União Soviética por Joseph Stalin é exatamente o oposto. Embora o Cristianismo seja uma doutrina mais amplamente conhecida, as atitudes atrozes dos que se auto denominam “cristãos” ainda causam indignação em muitos corações. O Legado de Jesus, porém, é muito claro e muito sólido. Cada palavra proferida por Ele foi solidamente edificada no exemplo.

“A cada um será dado segundo as suas obras”.

Essa assertiva de clareza cristalina e essência inquestionável é suficiente para fazer cair por terra toda sorte de intolerância engendrada em  Seu nome. Cada um receberá segundo as suas obras. Independente de crenças e convicções religiosas, independente de orientação e identidade de gênero, independente de raça, independente de  castas sociais e familiares. Essencial apenas é o que a atitude de cada um gerou. E importa apenas à cada um. Pela obra que edificar ao longo da sua jornada terrestre, João receberá sua paga. Não importa a Antônio, ou a Francisco, ou a Maria a obra de João. Cada um “será julgado” pelas próprias construções. A atitude alheia em nada interfere na sua própria caminhada evolutiva. É inadmissível conceber que guerras sangrentas como as Cruzadas fossem executadas com a finalidade de ampliar as fronteiras do Cristianismo. Que as atrocidades da Inquisição fossem para o bem do Evangelho. Que preconceitos, dos mais diversos, disseminados por legiões de religiosos fundamentalistas, estejam em concordância com a misericórdia de Jesus. Nenhuma intolerância religiosa, seja ela pautada na violência ou no preconceito, está prevista na Doutrina Cristã.

Abandonemos as vestes rotas do senso comum. A informação se encontra na palma da mão, literalmente, nos tempos modernos. É preciso ampliar o campo de visão e tirar a mente do embotamento, ou nossa boca continuará repetindo mil vezes uma mentira e as nossas mãos participarão ainda de muitas iniquidades, semeando a nossa própria derrocada.

Publicado em 18/06/2016



O CAMINHO QUE CONDUZ À DEMOCRACIA

Nossa jovem, incipiente e aparentemente frágil democracia.

O patente desrespeito pelo  voto da população e o espetáculo de horrores orquestrado por ladrões que foi a votação pelo impeachement demonstrou o quão frágil ela ainda é de fato. Estarrecidos, escutamos apologia à ditadura ser aplaudida. Presenciamos no último domingo  verdadeira eleição indireta, precedida de campanha eleitoral e toda sorte de articulações criminosas. Votada por parlamentares que teoricamente deveriam nos representar, já que foram eleitos por nós. Mas se recusaram a fazê-lo. Optaram por representar suas próprias famílias e propriedades. Em nome de Deus. “Deus, Família,  Propriedade”. Isso me soa incomodamente familiar.

Necessário se faz encontrar um caminho que nos reconduza à Democracia. Mais que isso, que nos reconduza a uma Democracia forte, inabalável! Mas um caminho menos tortuoso, um caminho que não seja salpicado pelo sangue e pelas lágrimas de muitos. Esse caminho existe. É transitável. Nos resta iniciar (ou seguir) na travessia.

Mas qual a razão da dificuldade?

Seria o Brasil um país jovem demais e cujas dimensões continentais impossibilitariam uma sociedade justa? Necessário se faria apelar para o “estado mínimo” em prol da economia ainda que isso signifique dilatar ainda mais as diferenças sociais? Tomemos então a Austrália como exemplo. País grande e jovem, como o nosso. Na Austrália paga-se 45% de imposto de renda. O que em primeiro momento parece absurdo, na verdade possibilita um sistema viável e eficiente. Com uma gestão impecável e a arrecadação o governo garante assistência médica de qualidade, educação do ensino infantil ao superior,  transporte público, segurança e lazer. O cidadão australiano paga quase metade do seus rendimentos ao governo. Mas ao contrário de nós paga apenas uma vez. Não precisa pagar planos de saúde, não precisa pagar a educação dos filhos, não precisa fazer seguros de carro a preços estratosféricos devido ao alto risco de furto, não precisa comprar uma cota de clube, já que além de praias e parques  com infraestrutura de ponta contam com piscinas públicas. “Estado máximo” e quase nenhuma desigualdade social. Exemplo de sistema no qual a meritocracia pode ser considerada justa. Mas há um ponto essencial, imprescindível para o funcionamento do sistema. Há que se ter honestidade. Desvios de arrecadação impossibilitariam qualquer gestão de recursos, por mais inteligente que fosse. Concluímos então que na Austrália existem governantes honestos e que corrupção é provavelmente a exceção. Representantes honestos eleitos por pessoas honestas. Tenho por relatos de amigos que uma carteira foi esquecida em um banco de praia. Documentos, cartões e algum dinheiro. No dia seguinte, quando o dono da carteira se deu conta do esquecido, lá estava a carteira, com o dinheiro inclusive. No mesmo local onde fora esquecida. O produtor de abacaxis deixa seus abacaxis em um caminhão com uma cesta ao lado e uma placa  informando o preço.  Retorna ao fim do dia e recolhe os abacaxis restantes e a cesta com o pagamento pelos que foram levados.

O  fator que impossibilita que nossa democracia siga seu caminho é o mesmo que trava nosso crescimento. É o mesmo motivo pelo qual as políticas sociais não conseguem ser substituídas por medidas reais de igualdade, como melhorias na escola pública. É a desonestidade dos nossos representantes. Eleitos por cidadãos honestos. Cidadãos que não sonegam impostos, que não compram recibos, que não estacionam em vagas para deficientes, que respeitam o assento para idosos no transporte público, que não compram pirataria, que não batem o ponto  sem trabalhar,  que devolvem as carteiras perdidas, que pegariam o abacaxi e pagariam por ele ainda que não estivesse presente o dono da banca para cobrar. Esses somos nós, não somos? Não. Não somos. A desonestidade do nosso Congresso reflete  desonestidade da nossa sociedade.

Nesse momento a Democracia sangra. Necessárias intervenções urgentes. Necessário que ela seja resgatada, reanimada. Necessário se faz nesse momento lutar com todo afinco, com todas as forças. A força da palavra, a força da Constituição, a força da legitimidade do voto, a força da união, a força que a gente nem sabe que tem mas que a indignação ajuda a revelar. Importante não se conformar com esse patente golpe parlamentar e de forma organizada tentar revertê-lo.

Mas assim como uma criança que precisa ser alimentada, cuidada e amada diariamente,  a Democracia também depende de cuidados para que possa definitivamente vingar. Cuidar da Democracia é cuidar das nossas próprias atitudes. É contribuir efetivamente para a consolidação de uma sociedade  digna, livre de preconceitos, com pleno respeito pelo direito de todos. A solidificação da  Democracia depende da nossa mudança de postura mediante as pequenas coisas. Criar uma cultura de honestidade que ainda não aprendemos a valorizar. Esse é o caminho. Quando aprendermos a viver com dignidade plena, não mais votaremos em vão.  E não mais teremos que lamentar pelo nosso próprio país.

Publicado em 18/04/2016