Morre Fidel Castro, aos 90 anos. Obrigado, comandante!

Se viver 90 anos já é algo raro e de se saudar, viver tantos anos com coerência e com tanto serviço prestado a história é mais ainda. Por isso e por tudo que significou, a meu ver, Fidel, a palavra que me vem não é “pêsames”, mas sim, “obrigado”.

Fidel segue vivo no sorriso de cada criança cubana que resistiu a mortalidade infantil (Cuba tem o menor índice do mundo). Em cada (todas) criança que tem escola em Cuba e que segue de suas primeiras letras à universidade. Vive na universalidade e qualidade do atendimento à saúde. Fidel vive cada vez que dizemos, orgulhosamente, Viva a América, e não falamos dos EUA. Vive cada vez que um oprimido diz não a seu opressor e reage quando tudo leva a crer que não é possível reagir. Vive fazendo de nós uma ilha de resistência diante de um mundo de desigualdades. Cada vez que não baixamos a cabeça para nosso algoz. Fidel vive nos ensinando que há uma Sierra Maestra em cada canto do mundo, de onde, organizados e juntos, poderemos lutar para mudar a história. Vive, também, no fracasso de seus adversários imperialistas que jamais entenderam como não conseguiram dobrá-lo. Vive em cada pessoa que não aguarda a Black Friday para ser feliz. Vive, porque nos ensinou para sempre, que o importante é estar com a certeza da história. Que esta é que nos julga.

Comandante, meu muito obrigado. A história não só o absolveu, mas o recebe com honras!

Postado em 21/12/2016




A casa grande montou as olimpíadas, mas a senzala ganhou as medalhas.


Gritamos que não iria ter copa e teve. Teve? Não sei. Pelo menos não aquela como de tempos atrás em que pintávamos as ruas animadamente. Jamais esquecerei a de 1982. Por que eu tinha 16 anos? Era eu, inocente? Ou porque tínhamos Zico, Sócrates, Falcão, Junior, Leandro e tantos outros que, para além de craques, jogavam futebol com a mesma disposição e vontade de ganhar que nas peladas de minha rua? E agora vieram as olimpíadas. Vieram manchadas pela ganância de seus mandatários. Respingada do sangue dos moradores removidos, violentados pelo poder público, da Vila Autódromo. Marcadas pela especulação imobiliária e os crimes ambientais promovidos pelos empreiteiros que forjaram o “espírito olímpico” deste prefeito. E quando tudo parecia perdido, quando a solenidade de abertura se fazia pelo cinismo espetacular como se a beleza milionária de um espetáculo disfarçasse a canalhice presente, eis que a vitória verdadeira faz o verdadeiro espetáculo. Eis que o olímpico vira o jogo e se afirma. Vem Rafaela Silva, negra, favelada, mulher, homossexual, sobrevivente do extermínio de jovens com suas características e vence. Vence tudo. Vence um projeto de Brasil que pensava reinar soberano e cínico pelo sucesso de sua corrupção. Vem também a Marta e se faz ídola dos meninos que almejam a vida de boleiro. Já pensaram a cabeça dos pais machistas gritando para o filho jogar que nem a Marta? Surge ainda Joanna Maranhão que, a despeito de seu resultado indesejado nas piscinas, afirma que não se calará diante das ofensas racistas, de preconceito regional e misógenas que sofreu nas redes sociais. Joanna afirmou que ganhar e perder faz parte do esporte, mas que preconceito não faz parte da vida social! E tudo isso enquanto a seleção brasileira masculina, de futebol, ainda que ganhando seu último jogo, se desconstrói enquanto ícone desportivo. É o que dá quando se confunde profissionalismo com enriquecimento enquanto finalidade. Alguém avise aquele eterno garoto promissor do futebol que conta bancária não é modalidade esportiva. Pois é, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Pois é, de novo, quando achávamos que o jogo estava perdido, elas, atletas que para exercerem seu sonho tiveram que encarar o modelo conservador e excludente da sociedade, por dentro do castelo de areia que são estas olimpíadas, afirmaram que estamos vivos. Impossível, para mim, não lembrar da cena de Hitler se rasgando de raiva ao ver o desportista negro, Jesse Owens, ganhar 4 medalhas de ouro, nas olimpíadas de Berlim, em pleno Nazismo, provando a todos a farsa da superioridade racial. Tem sido assim aqui. A casa grande monta as olimpíadas, mas é a senzala quem ganha as medalhas. Confesso que estou gratamente surpreso. Confesso que me sinto revigorado. Viva às olimpíadas. Viva o povo brasileiro. Fora Temer. Fora Paes.

Postado em 11/08/2016

Game of Thrones é aqui! (Que caiam os reis)

Confesso que no início busquei esta série só para ter mais um papo com meu filho. Entrar em seu universo. Mas não foram precisos muitos episódios para eu perceber que estava gostando. Pronto, cá estou eu seguindo GAMES OF THRONES. É uma bela produção com elementos de narrativa muito interessantes. Por exemplo, não existe a dependência de personagens principais. Este, por assim dizer, são os jogos do trono. Completamente despersonalizado. E como todo jogo de poder, a população de modo geral é figuração. Assiste oprimida e subalternizada a tudo.

Não foram as batalhas, nem o cenário medieval, contudo, que me chamou a atenção. Nem, repito, a bela produção. Mas, a cada episódio, cada cena, fui sendo levado a fazer o paralelo com nosso cotidiano. Sim, a série é livre e as interpretações também. Não vamos cair no erro de achar que a história se repete. Mas segui pensando, porque neste jogo de poder só o poder interessa? Por que as pessoas seguem poderes que não são pautados em honra e dignidade?

Lembro de uma cena em que um conselheiro do rei ao ser questionado por seguir um rei farsante, respondeu: “não sigo ao rei, sigo o reino”. Sim, estar no poder. Só isso que importa. E o povo, vítima das arbitrariedades, porque não se rebela? Despreza este poder, o teme, mas não crê que pode derrota-lo.

Games of Thrones é aqui. No nosso bairro, na nossa cidade, no país. Eis talvez, o grande jogo do poder. Fazer com que o povo não se sinta capaz de reescrever sua história. Mudar as regras. E assim seguimos assistindo os desonrados reis caricatos da contemporaneidade desfilar por nossos bairros. Véspera de eleição então, nem se fala. Farsantes, promotores de nossos problemas, caminham distribuindo farelos e prometendo brioches a quem, cotidianamente, tem o pão negado. E atrás destes, é claro, vão os “conselheiros”, muitas vezes bobos da corte, não importa de que corte sejam. Aqueles que procuram andar sob a sombra da coroa como se isso fizesse destes menos povo. Talvez como o peixe piloto que segue o tubarão para se alimentar de suas migalhas. Que triste. Patéticos bajuladores.

Já estou indo para a quinta temporada. Estou vendo atrasadamente, pois na TV a série já está na sexta. A desonra continua pautando as relações de poder. Arrisco o palpite de que será assim até o final, afinal, apesar de fictícia, a série se passa na Idade Média. Sei bem como tudo se dava neste período. Contudo, sigo aguardando a mudança de rumo no nosso Game of Thrones. No nosso cotidiano. O que nos impede? Por que seguir e sustentar o poder que nos oprime? Por que não se rebelar contra a morte injusta de nosso igual se, na certa, os próximos podemos ser nós mesmos? Aliás, por que trono? Por que rei se para existir rei tem que existir milhares de súditos? Por que não praticamos o Game of Life (Jogos da Vida), ou quem sabe,  Game of Equality (Jogos da igualdade).

Apesar de tudo, ainda acredito nesta nova série. Afinal, se pensarmos bem, somos nós todos seus roteiristas. E se nós a escrevermos, porque não terá final feliz para nós?

Marcelo Biar, em 22 de julho de 2016.

Crime de associação ao Cunha!

Gosto da lógica infantil. Por trás de um aparente desconhecimento das coisas, existe uma praticidade. Fazem perguntas óbvias, ou nós adultos é que com o tempo passamos a travestir nosso cinismo em subjetividade?  Ou quem sabe, incapazes de reverter situações, passamos a criar explicações complexas para as coisas que, embora simples, nos dominam?

Pois bem, deixando a criança que habita em nós falar, pensemos sobre o Eduardo Cunha. Todos falam do grande poder que ele possui. Do quão articulado ele é. Do tanto que outros o temem. Mas por que o temem? Ele é violento? De onde vem seu poder?

Falam que se ele abrir a boca a reública fecha… Pois bem, infantilmente, ou melhor, objetivamente, proponho que busquemos quem são estes que o temem e garantem seu poder. Pensando de forma rápida e direta, se ele tem poder e era presidente da Câmara, quem dava poder a ele eram outros deputados. Então me parece que ele era o articulador das maracutaias. Pegava para si e abastecia outros. Outros, de onde? Só podem ser seus aliados que, progressivamente, passam a ser seus sustentáculos, devedores de favore$. Hum… aí vai se constituindo o poderoso Eduardo Cunha. O homem que desde o governo Collor, na Telerj, vem organizando esquemas de corrupção. Progride em seus crimes, avança em seu espectro de poder corrupto e se torna presidente da Câmara. Consegue, sendo publicamente um dos maiores corruptos do Brasil, fazer de seu processo o mais lento da história.

Mas não se chega a este ponto só com artimanhas como deputado. Seu poder não vem do mandato. O mandato sim, vem do seu poder. E poder assim precisa de mais articulações. Não podemos esquecer que um deputado sai de um estado. Eduardo Cunha, deputado do PMDB do Rio de Janeiro, que tem por base os deputados de seu partido e outros pedintes do congresso, também, em seu enorme poder corrupto, possui aliados no executivo. E, não por acaso, é claro, o Rio de Janeiro, estado e município de sua origem, é governado nestes dois âmbitos, pelo PMDB, faz tempo. Cabral e Pezão… Paes… Todos com a mão suja e manipuladora do Picciani, por trás. E claro, todo este poder capaz de conduzir um impeachment absurdo e levar a presidência da república um Temer.

Eis aí, por lógica direta, os tais que temem Cunha e servem de seus alicerces. Pedintes a varejo e o PMDB que, em âmbito municipal e estadual, no Rio de Janeiro e na presidência da república, com o impostor Michel Temer, possuem no Cunha o eixo central das articulações nefastas. É sim EDUARDO CUNHA, talvez não o mentor da quadrilha chamada PMDB, que vem saqueando a nação, mas o ponto de interseção dentre estes bandidos. Que seja preso este Cunha. Mas também Cabral, Pezão, Paes… todos, pelo menos, pelo crime de associação ao Cunha!

Marcelo Biar, em 11 de julho de 2016.


Eles não valem nada! E você?

Eles não valem nada. Repetimos isso nos referindo a determinados políticos e, neste post, me concentro nisto que se chama PMDB. Nominalmente Cabral, Temer, Paes e Pezão. Claro, poderia aumentar esta lista. Mas falemos destes. Aliás, antes de falar destes, pergunto: E você, e nós, o quanto valemos? Valemos o quanto determinamos que valemos. É importante que nós digamos quem somos. Nossos princípios e valores.

Eles são o que já sabemos. Paes fez do nosso município um balcão de negócios com empreiteiras. Removeu cidadãos de suas moradias a pretexto de fazer olimpíadas quando todos sabemos, foi por pura especulçao. É aliado destas empreiteiras e das empresas de ônibus. Entregou a saúde a iniciativa privada que foi responsável por grandes desfalques. E agora tenta nos impor um candidato a sua sucessão reconhecidamente agressor de mulheres. Mas Paes também é aliado de Pezão que é seguidor de Cabral. Pezão que desde que tomou posse vem assumindo publicamente a falência do estado. Falência provocada por seus desmandos em continuação aos desmandos do Cabral. Governos estes que se notabilizaram, dentre outros absurdos, pelas anistias fiscais dadas às empresas que os apoiam. Além, é claro, da repressão violenta a movimentos sociais, população de baixa renda e manifestantes.

Estes todos (Paes, Cabral e Pezão), não por acaso, apoiaram o golpe do ilegítimo Temer. E apoiaram pelos mesmos critérios imorais de sempre. Estão recebendo perdão de dívidas com o governo federal e ainda receberão verba extra para as olimpíadas. Isto mesmo. Estas olimpíadas superfaturadas vão receber verbas de socorro. Estas verbas, que fique claro, embora o estado esteja em atraso com seus funcionários, e com seus trabalhadores terceirizados sem receber faz 5 meses, irão só para as olímpiadas. E assim segue o governo Temer fazendo circular nosso dinheiro entre os seus que, assim como ele, não revertem para questões sociais. Pelo contrário, segue este ilegítimo e interino presidente, desmantelando o pouco de avanços que havíamos conquistado.

Estes são ELES. Eles que nos saqueiam. Que não nos tem como prioridade. E VOCÊS, e NÓS? Quem somos? Seremos o alicerce destes que nos exploram ou a mudança? Seremos o silêncio permissivo ou o grito que ordena a transformação? Não podemos cobrar de nosso inimigo o carinho. Não podemos cobrar do anti ético, a ética. Não podemos cobrar de quem nos oprime, a nossa emancipação. Mas podemos e devemos cobrar de nós, que sejamos a mudança que desejamos! Temos valor. Não somos ELES. Sejamos NÓS e por NÓS!

Marcelo Biar, em 21 de junho de 2016.

Teu preconceito mata em Orlando e em qualquer lugar!

Pronto. Mais um atentado nos EUA. Mais de 50 mortos em uma boate. E qual a novidade? Era uma boate gay. Sim, mas qual a novidade? Se atentados nos EUA não são novidades, há que se registrar que ataques a homossexuais também não. E não me refiro apenas aos EUA. O Brasil ostenta o triste recorde de ser o país que mais comete crime contra homossexuais. Aqui morre um homossexual por dia vitima de violência.  Mas claro, um por dia não dá manchete de jornal. E por falar em jornais, eis que as mídias conservadoras já estão dizendo que o ataque a boate de Orlando foi um ato terrorista. Umas, mais desavergonhadas,  insistem no posicionamento islâmico de esquerda do assassino. Bela tática. Uma sociedade alicerçada em valores excludentes e preconceituosos mata cotidianamente aqueles que pensam e se posicionam diante da vida, de forma diferente, e, para completar, atribuem o mal feito a um fantasma. Ou melhor, àquele que pretende combater.

Pois sim, aceito a tese do terrorismo neste caso. Neste em nos demais casos de incapacidade de convívio com as diferenças. Mas que fique claro que, desta forma, vivemos em uma sociedade terrorista. Não me refiro a nenhum oriental. Ninguém do mundo árabe. Me refiro a nossa sociedade que mata e agride, cotidianamente, aquilo que se difere do seu padrão. Que fique claro que o silêncio diante da violência sobre qualquer minoria é, neste caso, cúmplice. Também aperta o gatilho. Assim como também os falsos moralistas, que se apropriando indevidamente da palavra de deus, pregam o ódio e justificam tais atos. Deputados homofóbicos,e seus seguidores, também são terroristas.

É mesmo um terror a violência a uma orientação sexual, a uma etnia e a um gênero. O Brasil, que é recordista de violência contra homossexuais, é também recordista de homicídios a jovens negros favelados e de violência doméstica. E este terror, este terrorismo, é também de Estado quando percebemos a inação de seu combate. Quando vemos um governo golpista extinguir o Ministério da mulher, minoria racial e direitos humanos e a SECADI (Secretaria de educação continuada, alfabetização, diversidade e inclusão). Fica claro seu desprezo por tais questões. Fica clara sua permissão a violência. Seu riso escondido no canto da boca.

Sim, estamos falando do ataque a boate de Orlando. Mas sim, também, estamos falando de todos os casos. Os casos de mortes cotidianas. da violência que chega ao tiro, mas que começa no olhar discriminatório. Falamos de uma sociedade excludente e desrespeitosa. Falamos de um jovem pertubado que atira em pessoas que nem conhece. Mas falamos de escolas que não aceitam as diferenças, de deputados e religiosos homofóbicos, racistas e sexistas. Falamos e não podemos nos silenciar.

Que fique claro: o preconceito mata!

Marcelo Biar, em 12 de junho de 2016.

Quando eu digo fora Temer…

Sim, fora Temer. Mas o que isso significa? Alguns que sofrem de miopia histórica acham que tudo se resume a petralhas versus coxas, ou qualquer outro rótulo empobrecedor do nosso fazer política. Que tudo se resume a levar Dilma de volta ao governo federal. Na verdade, para ser honesto, para alguns pode ser que seja só isso mesmo. Mas existem outros diversos significados ou justificativas para esta causa.

Fora Temer significa defesa democracia. Defesa àquilo que tanto lutamos para construir e, mesmo antes de estar pronta, já recebe novo golpe. É defender que existam regras claras para o convívio social e político, já que sem estas ficamos expostos a vontade daqueles que possuem o poder coersitivo do dinheiro. Quando vemos Temer assumir a presidência e extinguir o Ministério das mulheres, minorias raciais e direitos humanos, lutar contra Temer é se opor a uma política que afirma a ausência de direitos e vitimiza minorias históricamente já tão açoitadas. É lutar contra um governo/cultura que afirma o patriarcado na composição de um ministério branco/hetero/masculino, alegando o critério da meritocracia para sua formação, afirmando, assim, a relação entre mérito e este perfil colonizador. É ainda, lutar contra este discurso meritocrático que tenta nos fazer crer que Michelzinho (filho de Temer), com 7 anos de idade, ter um patrimônio de 2 milhões é normal. Aliás, lutar pelo Fora Temer é resistir a um governo que tem um presidente com um filho com este patrimônio e ataca políticas sociais como Bolsa Família, PROUNI etc.

Fora Temer é resistir a privatização da saúde, Pré Sal, e educação. Sim, nossa saúde e educação não são o que desejamos, mas daí a permitir sua privatização… E o que você acha de demorar mais a se aposentar? Se não gostou você também faz parte do Fora Temer.

Fora Temer é incrível. Consegue juntar em duas palavras, onde uma é o nome de um execrável e inexpressivo político brasileiro, muitas causas. Incrível como um nome tão insignificante pode juntar, no combate a ele, tantos significados. Se o Fora Temer une muitas causas, sejamos muitos pelo Fora Temer.

Marcelo Biar, em 10 de junho de 2016.

Veja aqui a relação dos estupradores!

Mais um caso de estupro. Aliás, quantos mais desde o último divulgado pela mídia? Quantos registrados? Quantos ocultados por suas vítimas? Um número incalculável! O fato é que, em uma sociedade que culpabiliza a vítima pela violência sofrida, jamais saberemos ao certo a proporção deste crime. Afinal, não bastasse a mulher sofrer esta violência ainda tem que esconder da sociedade já que esta a condenará. Afinal, o que é vexatório, sofrer o estupro ou cometer um estupro? Só uma sociedade muito doente pode culpabilizar a vítima. Só uma sociedade de cultura estupradora faz isso. Uma sociedade cúmplice!

O caso que se tornou público, mais recente, foi da jovem que foi estuprada por 33 homens. E eis que, como quem perpetua o ato, comentários atacam a vítima. Julgam seus hábitos como que para justificar a violência sofrida. Continuam a estuprá-la e a avisar as demais mulheres que existem casos em que é possível e justificável estuprar. Pois se é assim, pouco diálogo nos resta! Se de forma escancarada milhares de pessoas defendem esta prática, cabe a nós  listá-los como estupradores. Se não se escondem, não podem reclamar por serem revelados.

São estupradores aqueles que praticam ato sexual sem o consentimento do outro. Logo, os que forçam o ato mediante qualquer nível de violência. São também os que entorpecem o outro e se aproveitam de qualquer estado de inconsciência. São também e igualmente estupradores os que defendem esta ação. Os que propagam justificativas, já que assim cogitam haver casos em que este ato possa ser considerado legítimo. Da mesma forma são estupradores os que, avaliando a conduta da vítima, explicam o estupro. Culpabilizam a vítima. Sim, estes também são estupradores. Aquele que, baseado em uma moral, muitas vezes travestida de argumentação religiosa, definem quem deve ou não ser estuprada, é também um estuprador. Os que fazem piadas e banalizam os casos. Também os que riem. Os que usam o estupro como ameaça, ainda que se restringindo ao campo discursivo, também são estupradores. Quem, ao narrar um caso o faz de forma naturalizada. Quem ao descrever tal caso e se referir a vítima começa sua frase com um “mas também…”.

São muitos os estupradores. Tantos que apenas identifiquei seus perfis. Não caberia nominá-los. Eu poderia ser injusto e esquecer alguns. Poderia expor apenas os mais famosos. Acabaria citando o deputado que acha que alguém pode ser merecedor de estupro. O pretenso ator que narra o estupro cometido por ele em um programa de TV ao som das gargalhadas do igualmente pretenso apresentador. Quem sabe chegaria a um religioso, ou mesmo a um suplente de senador que assume sua vaga no senado já que o titular assumiu um ministério no governo que não possui mulheres em cargos de primeiro escalão e extinguiu o Ministério das mulheres, igualdade racial e direitos humanos. Pensando bem, poderia também citar um presidente interino e, nesta linha de raciocínio, citar ainda um ministro do supremo tribunal que concedeu habeas corpus a um médico que estuprou mais de 200 mulheres.

São muitos os estupradores nesta sociedade. Muito mais que 30, na verdade. Pois, sejamos também muitos a apontá-los. Que nosso silêncio não seja, também, um estuprador.

Marcelo Biar, em 30 de maio de 2016.